Sinopse


O filme trata da errática e improvável  amizade entre dois homens, Miguel e Gary:

Miguel é um portugês com cerca de 35 anos, que navega entre trabalhos precários e que aspira a ser escritor.

Gary é um norueguês, com cerca de 60 anos e uma vida marcada pelo consumo crónico de drogas pesadas, que agora vive em Portugal.

Um dia Gary desaparece.

A busca que Miguel inicia pelo seu paradeiro, acompanhado no seu percurso por Marta, Texas, Sver e Mike, leva-nos até a uma casa isolada na serra do centro de Portugal.

Nesta casa vive um silencioso homem alto de barbas e cabelos compridos, e um majestoso cão cinzento que fixa a lua.

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Uma longa-metragem de ficção de Luís Palito,

em fase de pesquisa e desenvolvimento/procura de financiamento.

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NO FUTURE

NO FUTURE

NO FUTURE FOR ME

Sex Pistols, 1976.


Nota de Intenções

Este filme tem uma forte base autobiográfica, centra-se na cidade em que habito e é acerca do tempo em que vivo. As personagens e locais apontados partem de encontros feitos e mantidos ao longo do tempo, neste espaço real e vivido.

Especificamente, o filme passa-se há sete anos atrás, em 2014, na cidade do Porto, no início do boom turístico que Portugal experimentou e que a pandemia veio agora interromper.

 

Seremos conduzidos pela trajectória de dois homens de idades e proveniências diferentes, em diferentes estados da sua vida, até à morte de um deles. A relação de fraternidade que se vai constituindo e desenvolvendo entre diálogos nocturnos num velho quarto de tectos altos, transcende as suas diferenças mais notáveis, numa titubeante progressão humana feita em inglês partido, língua alheia aos dois, mas que ambos partilham.

 

Os ecos da última metade do século xx, na passagem para o início do xxi, são aqui evidentes, e chegam-nos através destes personagens: é um filme sobre gente que veio de uma Europa com fronteiras, gente que esteve nas discotecas cheias de fumo, nas casas de máquinas de jogos, que usou o clube de vídeo e o telefone fixo, e que viu o dinheiro vivo.

São duas gerações, pai e filho, num momento em que a diferença se esbate e em que emerge esse encontro saído do reconhecimento do desacordo e inconciliação com algumas das riquezas e exigências da sociedade de consumo, na relação com os seus valores de estabilidade, conforto, segurança e obediência.

 

O pacto mal estabelecido que aqui surge não é com o tempo, é com a norma, a face nojenta da força.  

A liberdade que buscam, ou a fuga que procuram, é de um paradigma social, paradigma que é criação e repre-sentação de um tempo progressivamente e absolutamente seu.

E é assim que eles o reclamam, sem parar, da Europa com fronteiras ao boom turístico, à pandemia, do mar gelado da Gronelândia ao carro em fogo na noite da serra do centro de Portugal.

 

Não é uma história sobre a desadaptação ao tempo, é sobre desacordo com as regras e recusa de obediência.

 

O itinerário abaixo descrito constitui-se, nesse sentido, como um um mapa de referências, um quadro que guia a criação e desenvolvimento dos personagens, das situações e locais presentes no filme, em articulação com a história específica do seu tempo, espaço e movimento no mundo:

A partir do momento em que Chuck Berry fez estourar nas cordas da sua guitarra as clássicas notas da abertura de  Johnny B. Goode, em 1959, nada mais seria como dantes. O rock invade a cultura popular e opera uma revolução cultural que imprimirá profundas rupturas nos domínios estéticos, artísticos, sociais e políticos da segunda metade do séc.XX, principalmente na América do Norte e na Europa, mas não só. Foi, ou viria a tornar-se de facto, uma linguagem universal e, nesse sentido, agregadora de povos e culturas, funcionando como um denominador comum de identificação geral, uma primeira base de comunicação estética, política e filosófica.

Sublinhe-se o paradoxo de um movimento que nasce com a massificação e que acaba por se constituir como um reconhecível e partilhável agente contra os valores e representações da sociedade tradicional e conservadora, industrial e capitalista e contra a cultura de massas, em muitas das suas expressões, nomeadamente o punk dos anos 70 e 80, no pós-rock e no grunge dos anos 80 e 90.

 

Os sonhos de liberdade, a contra cultura, o consumo de drogas e a marginalidade num percurso partilhado com o de uma indústria do espectáculo, pronta a pôr as suas cercas e armadilhas pelo caminho.

 

Aos sonhos e aos gritos, juntavam-se outras notas, mais profundamente impactantes na sua universalidade:

a guerra fria, o bloco de leste (1947-1991) e a guerra do Vietname (1955-1975), o muro de Berlin (1961), a Perestroika (1985-1991) e a queda do muro(1990), o Tratado de Maastricht, a União Europeia (1993) a guerra do golfo, a operação Escudo do Deserto (1990), o 11 de Setembro (2001), o petróleo, a indústria, a guerra e o dinheiro, até aos dias de hoje, de turismo (terrestre e espacial) e pandemia.

 

O fenómeno musical aqui descrito pretende servir apenas de dispositivo ilustrador e discursivo, como forma de exposição de um imaginário cujas referências são mais ou menos universais e que acompanha e enquadra a vida e o tempo destes personagens.

 

Esta é, todavia, uma arqueologia específica, subjectiva e, em certo sentido, imaginária.

A sua referência está longe  de se presumir como um facto absoluto, é distante de narrações fixas e totalitárias. Na verdade, é apenas um grosso  traço que se quer afastado de exposições certas e demasiado sérias, muito menos dogmáticas e fundamentalistas.

 

É o rasto que se quer visível de um movimento frágil de afirmação e de deleite na diferença, resistência e mistério da vida humana, numa perseguição que supõe um respeito profundo pela História, como forma de reconhecimento e reivindicação do tempo e do indivíduo, e não como uma estrutura estática de fixação da norma e de nostalgia por um passado.

 

É, antes de mais, uma reivindicação do presente, neste tempo em que se levantam novamente, de forma tão aberta e leve, as vozes do medo e da avareza, no punho fechado das pessoas de bem.

 

Este filme assinala o encontro  e reconhecimento entre outras pessoas, que não realizaram plenamente esse pacto exigido pela face mais ortodoxa, moralista e autoritária da sociedade organizada por formulários, horários, honorários, ratings e rankings.

 

Alguns destes pássaros voam para o sul, à procura de um sol que foge.

Ás vezes não voltam.