Uma longa-metragem documental de Frederico Lobo, em fase de pesquisa e desenvolvimento/procura de financiamento.

Nouakchott

Sinopse

Ao olhar para Nouakchott, capital da Mauritânia, encontramos um estranho espelho sobre a Europa e a civilização ocidental, que com todas as suas luzes e brilhos, procura chegar aos confins do deserto. Onde antes apenas havia areia e um sol ardente numa terra inóspita, uma cidade gigante expande-se. Através de um misterioso homem que vagueia pela cidade, um taxista e uma jovem estudante, circulamos pela cidade juntando mundos distantes que colidem com as fronteiras da modernidade.

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O absurdo depende tanto do homem como do mundo

Albert Camus , O Mito de Sísifo

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Nota de Intenções
 

Encontrei-me pela primeira vez em Nouakchott há pouco mais de dez anos, na rodagem de Bab Sebta, um documentário sobre os movimentos migratórios entre África e a Europa. Durante os 3 meses que durou a viagem o choque civilizacional foi evidente: a Mauritânia parecia um sítio em suspenso, com o lastro deixado pelo tempo lento, obrigado pelo calor do deserto e pelos ventos carregados de areia. O paradoxo do espaço era desconcertante: por um lado uma sociedade autoritária e estratificada, com o domínio autocrático de uma elite árabe, por outro, uma cultura plural, ponto central das rotas migratórias de África Occidental. Uma torre de babel governada por um regime ditatorial, mas onde a informalidade parecia tornar tudo possível, mesmo sem conseguir esconder as marcas violentas da existência de um passado de escravatura ainda bem presente no universo mauritano. O poder do gesto individual, directamente ligado à sobrevivência perante a imposição autoritária, era emancipador.

 

Dez anos volvidos e a vida levou-me de novo até ao deserto saariano. Nos anos 2017 e 2018, entre idas e vindas, vivi em Nouakchott. A vivência com Marta Amorós, arabista e professora de línguas na universidade de Nouakchott, uma voz e presença absolutamente essencial neste projecto, permitiu-me aceder a universos que anteriormente me eram distantes da vida da cidade, tanto pelo domínio do idioma como pelos desafios da vida quotidiana e o respectivo encontro com pessoas dos muitos mundos distintos que co-habitam na cidade mauritana. Do quotidiano partilhado ao longo desse período surgem algumas das imagens que aparecem aqui como ponto de partida para a procura de um filme.

A cidade alterou-se vertiginosamente. Ao olhar para Nouakchott encontrei um estranho espelho sobre o velho mundo da Europa e da civilização ocidental, que com todas as suas luzes e brilhos, procura chegar aos confins do deserto. Ao mesmo tempo, a presença chinesa impõe-se cada vez mais em todas as esferas e rompe definitivamente com a condescendência da Europa para com as suas velhas colónias: o choque cultural, colonial, é evidente na transformação do espaço e é este o reflexo onde assenta a busca do filme.

São evidentes os sinais de transformação de dia para dia nas zonas ricas da cidade: supermercados luminosos, passeios nas bermas das estradas (feitos de sol a sol, por exércitos de homens com pá e picareta), semáforos, lojas zara piratas, sinais de um novo Mundo que vai chegando. Entre o olhar do filme e a realidade que o envolve a pesquisa passará pela procura de imagens que pelo seu choque e contraste criem um ambiente patafísico*. Estas imagens são baseadas na experiência de observação directa do lugar que, através duma ligeira deslocação da realidade, ressaltam um estar imaginário e inebriado, onde, em simultâneo, o tempo lento é tomado de assalto: estilo de vida, ouro, ferro, americanos, chineses e franceses, domesticam a areia. Entre a geo-estratégia e a minúcia de um gesto a vida continua, da fraternidade ao absurdo da ordem existente, muitas vezes sopradas pelos sítios mais distantes e imaginários (a ocidente e a oriente).

Iremos ao encontro dos nómadas da cidade, aqueles que, de uma forma ou de outra ali foram parar e que todos os dias se movimentam no seu interior unindo mundos outrora distantes, num cruzamento entre relações de intimidade criadas pela vida e pelo cinema, e um universo composto de paisagens improváveis que manifestam em si mesmas o reflexo dos conflictos de forças dos nossos dias: sociais, culturais, económicas ou puramente vivenciais. Uma consciência poliédrica que nos retira do nosso lugar de conforto, expondo claramente, por trás do véu de areia e do calor abrasador, a arbitrariedade do Mundo.

A pesquisa para este filme passa impreterivelmente por um regresso à cidade de Nouakchott e a um novo confronto com a sua transformação. Haverá espaço para uma abordagem documental, de pesquisa arquivista, na procura de imagens da cidade nos anos 50, no Instituto Francês de Mauritânia, e no Museu Nacional de Nouakchott, ao mesmo tempo que um trabalho de campo etnográfico. Será essencial uma viagem à capital mauritana, acompanhado por Marta Amorós, e o reactivar de uma série de contactos na cidade, nomeadamente com Omar e com Hassan (personagens deste tratamento), assim como com a universidade de Nouakchott.

O contacto com gente que possa permitir a produção do projecto num território que nem sempre é acessível, é também um passo fulcral para a concretização deste filme. A viagem deverá ter a duração de cerca de um mês de maneira a conseguir reunir material para um projecto que permita conseguir financiamento e tornar o filme possível.

 

* Segundo Enrico Baj “a patafísica é anarquista, surreal, escandalosa, absurda e ludita, muito ludita (...) humor que desnuda e desafia o poder”